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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O MUNDO EM BLOCOS

  


O Muro caiu, mas o mundo continua dividido em lados. Quem presenciou a derrubada do Muro de Berlim, em 1989, relata que um espírito de incredulidade se misturava aos beijos e abraços de famílias que reencontravam.
Oriente e Ocidente viraram horizonte. Continuidade que não começa, nem termina, mas segue sempre, e, pela primeira vez na história, sem precisar saber para onde vai. Apenas segue.
Mais de vinte anos se passaram. Uma geração não viu o muro cair, ou não se lembra dele. Mas, apesar disso, o sentimento de incredulidade daquele momento não passou. A gelada Berlim ainda vive no inconsciente da humanidade.
Testemunhas do marco histórico contam que, embora não houvesse mais obstáculo físico, centenas de pessoas paravam na linha divisória do local, sem saber se avançavam ou não. Sim, pode-se entender o sentimento. Aqui estamos: 2013, com um muro que vive em nosso inconsciente. Sem saber se acreditamos que ele não existe, sem saber se avançamos.
Não há mais sistemas a serem discutidos. Há consensos e sensos comuns para tudo. O politicamente correto predomina. Os instintos foram rebaixados e substituídos por manuais práticos de tudo. Ainda estamos ou de um lado, ou de outro, por incrível que possa parecer.
Que mundo é esse que nunca aprendeu a viver sem divisórias? Por que é preciso catalogar e rotular tudo, e a todos? Confesso que me perco nesse processo. Talvez porque tenha nascido pós-1989 e sou meio “São Tomé”. Não vi o muro, logo não acredito nele.  Ou algo saiu errado na minha infância, porque eu não sei viver em lados. Pra mim o mundo é um território livre, pedindo pra ser explorado. O hoje não é um lugar estático e amanhã será tudo tão diferente.
As pessoas temem avançar sobre o que acreditam ser um muro, que simplesmente não existe. Não tiram os olhos dele, mas vão recuando, recuando, e quando percebem, caíram de costas no abismo de seus medos.
O muro é confortável pois te coloca entre os iguais e protege das diferenças. Afastamos-nos do que nos faria crescer. Não nos permite mudar de ideia e isso nos dá a falsa sensação de certezas.
 As pessoas se preocupam demais com as aparências e com a estabilidade. Agem pensando no futuro. Traem-se para garantir continuidade. Estou muito feliz onde estou e como estou, mas só consigo pensar que se daqui um, quatro, ou cinco anos não estiver mais aqui, é porque tudo deu certo. Por que esse medo de tentar? Seguimos, pois os obstáculos são colocados por nós e nossas convicções que teimamos em defender.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

ELA...


Ela mudou tudo em sua vida. Mas ainda senta no mesmo lugar - o local da espera. Ela não para de esperar.
Ela ainda quer mudar. Sair. Talvez voltar. Mas não tem mais tanta pressa.
Ela ainda olha para o céu sob o mesmo ângulo. Ainda sente-se mais perto dele por aquela vista.
Ela continua pensando mais na métrica de suas frases do que na organização de suas ideias. E as palavras deslizam sem compasso pela folha em branco.
Ela ainda pensa em mudar o mundo. “Vai menina, esse mundo é todo seu.” E ela vai. Sempre. Se arrepende. “Vai sem medo”, repete a frase que ouviu há algum tempo. E ela continua.
Ela se descobre forte. Não importa se ganha ou perde. Às vezes engole choro.
Ela tem saudade. “Por saudade, se isso foi ontem?” Mas não é mais. O peito aperta,a respiração acelera. O pulso treme. Risca e rabisca esse parágrafo. Não sabe como continuar.
“Ai, menina, para de ter saudade do futuro.” E ela vai vivendo. Deixa ser. Deixa. 
Ela faz listas. Risca os dias no calendário. Bagunça a mesa. Espalha as anotações. Usa o fone e esquece de ligar o som. Compõe sua música.
Amanhã, menina. Amanhã será um novo dia. Viverá com a experiência de ontem, te assustará com o hoje e sonhará com o amanhã. Traçará plano. Cumprirá metas. Vai menina... Não te esquece da tua meninice. 
Ela sorri.


sábado, 19 de março de 2011

AO ALCANCE DAS MÃOS

Uma noite para todos. Sim! A sensação de poder tocar o céu com as próprias mãos. Uma noite para sonhar. Um bom motivo ou apenas uma boa desculpa... Tanto faz! Hoje a Lua esteve enorme.
Revestiram a Lua de misticismos. Dezenas de lendas de lua cheia e seus personagens folclóricos. Alguns enxergam nela uma imagem boêmia, ou teriam estes, se valido de um pretexto para suas versões ocultas?
O fato é que a Lua só estará tão próxima geograficamente da Terra daqui 18 anos. Neste tempo sua vida terá mudado e o seu olhar para a lua terá aspectos que agora você não conseguirá imaginar. Em 18 anos, uma geração terá crescido. Nossos bebês não terão mais medo de Lobisomem; no entanto, terão descoberto outros medos que os farão voltar para casa, vez ou outra, em alguma noite enluarada, e pedir um colo. Porém, continuaremos a olhar para o céu todas as noites em que necessitarmos de respostas para perguntas mal feitas.
Acabamos por dar a Lua um dom, até então, pertinente às estrelas: o romantismo. Hoje, muitos pararam para contempla-la e estender esse brilho as suas vidas. Alguns quiseram eternizar, outros desejaram que esse momento acabasse logo.
Mas nada disso importa. Não é a Lua: somos nós! Nossos medos, nossas desejos, nossos amores. E assim continuará sendo, com os astros no céu e a vida seguindo o percurso que escolhermos.
De qualquer forma, há coisas que valem apena em uma noite fria... Hoje é um exemplo.


21:00h

22:00h

domingo, 6 de fevereiro de 2011

PATAGÔNIA - João Batista Melo

"chamamos fatalidade às coisas ruins que ocorrem comos outros. Quando somos envolvidos de alguma maneira na desaventura, existe apenas o mal, engendrado por outrem ou por nós mesmos. Não há lugar para o acaso ou o destino nas infelicidades que nos afligem diretamente. [..]

Ninguém conta histórias são as histórias mesmo que se contam. [..]

Pensou novamente em dedicar-se à profissão de bandido com o único feito de sugar na ilegalidade o que os poderosos roubavam sob a tutela do direito. Mas resolveu persistir na tentativa de ser escritor. [...]

Uma bala não retrocede, não se atira de trás para frente, não se desloca do corpo ferido de volta ao cilindro escuro onde aguarda o disparo. Projeta-se de modo irretroativo, saltando na mesma cadência dos ponteiros de um relógio, que nunca repõem o tempo já marcado. Não há tiros ao contrário, inexistem balas suspensas no ar.
[..]
Podia ser acusado somente de ter bebido copos de uísque nas comemorações que alguns dos elementos do bando fizeram ao se reunir.
[..]
Quem anda sempre cabisbaixo, nunca pode ver as estrelas...
[...]
A verdade é um fio de fumaça que se contorce na brisa. Fluída e flácida. [...]
Será que estamos sempre presos em algum lugar, em alguém, em alguma sensação? [...]

A Patagônia não é um lugar; é a vontade de ir sempre mais longe."
"A nação é um sonho, uma fantasia, uma idealização. Precisamos de um porto onde estabeleçamos as regras e os limites. Como há muito tempo recolhi das águas as minhas âncoras e me tornei um náufrago do mundo, estalo o chicote e considero que de alguma forma estou agora em meu próprio país. [..]
Nomes que se fundem em faces. Palavras que significam rostos. Nomes. Construções rituais de letras, evocações mágicas que arrancam a atenção de um homem, que o identificam, que o delimitam."
"Sinto que eu próprio estou em formação ao longo do tempo, que a vida e a Terra são uma grande fogueira onde danço nessa noite, nas anteriores e nas seguintes, à procura de uma forma definitiva que não sei se vou encontrar."
"Perco, assim, as conformações da geografia e encontro amparo nas únicas fronteiras que me pertencem: os meus próprios limites. São as coisas pensadas e sentidas, as pessoas ao meu redor mesmo quando as desconheço, os cenários se compondo ante meus olhos a cada momento, que se juntam para traçar os mapas de meu próprio país. Talvez eu não possua origens ou destino. Talvez  minha pátria seja o presente."